O Jeitinho da Gambiarra
Quando o improviso brasileiro deixa de ser solução e começa a parecer destino
Quando o improviso brasileiro deixa de ser solução e começa a parecer destino
O fio não devia funcionar.
Não era preciso ser eletricista para perceber. Bastava olhar. O cabo saía da parede com uma naturalidade suspeita, curvava-se como quem já havia aprendido a pedir desculpas, e trazia no meio do corpo uma faixa de fita isolante que não parecia exatamente conserto. Parecia promessa. Uma promessa antiga, escurecida nas bordas, repetida tantas vezes que já havia perdido a cerimônia.
Mesmo assim, funcionava.
A lâmpada acendia. O carregador carregava. O ventilador talvez ainda girasse no quarto quente. A casa continuava um pouco mais clara, um pouco mais possível, um pouco menos entregue ao defeito. Alguém tinha olhado para o problema e dito, sem solenidade: dá para resolver por enquanto.
O Brasil conhece profundamente essa frase.
O por enquanto é uma das unidades secretas do nosso tempo. Ele nasce pequeno, quase humilde, com cara de solução temporária. Depois atravessa a semana. Depois o mês. Depois se acomoda na parede, no portão, na cadeira, no chuveiro, no documento, no sistema, no corpo. Quando alguém percebe, o provisório já não é intervalo. É paisagem.
E é nessa paisagem que nasce O Jeitinho da Gambiarra.
Não como uma piada sobre fios, fitas, arames e objetos tortos. Também não como uma celebração fácil da criatividade nacional. A gambiarra merece mais cuidado do que isso. Ela é engraçada, sim. Às vezes brilhante. Às vezes comovente. Às vezes perigosa. Mas quase sempre nasce no ponto exato em que a solução correta chegou tarde demais, cara demais, longe demais ou simplesmente não chegou.
A gambiarra não é apenas uma coisa malfeita. Muitas vezes, é uma coisa que impediu o mundo de parar.
Uma porta não fecha. Um arame aparece. Uma cadeira manca. Um calço segura. Um cano pinga. Um balde vira infraestrutura. Uma tomada falha. A fita isolante entra em cena com aquela autoridade modesta das coisas pequenas que sabem que serão chamadas antes do técnico. Nada disso pretende virar filosofia. A pessoa só quer continuar o dia.
Mas algumas filosofias começam justamente assim: quando ninguém está tentando filosofar.
O provisório que fica
Há uma inteligência real na gambiarra. Seria arrogante negar isso. Quem improvisa lê rapidamente a matéria: peso, pressão, encaixe, risco, urgência, orçamento, tempo. Sabe o que ainda aguenta. Sabe o que pode substituir o que faltou. Sabe que a vida raramente espera a peça original chegar.
Essa inteligência, porém, vem misturada a uma pergunta amarga.
Quando o improviso salva?
E quando começa a humilhar?
Por uma noite, a fita isolante pode ser prudência. Por um mês, pode ser tolerância. Por anos, já começa a acusar alguma coisa. O mesmo remendo que ontem parecia engenhoso hoje talvez revele abandono. A diferença não está apenas no objeto. Está no tempo.
O tempo é o grande juiz da gambiarra.
Aquilo que por algumas horas é solução pode, com o tempo, transformar-se em método. Aquilo que nasceu como ponte pode virar endereço. Aquilo que parecia criatividade pode começar a esconder uma precariedade administrada com elegância demais. O Brasil sabe fazer funcionar. Essa é uma virtude. Mas também sabe se acostumar com funcionamentos que não deveriam bastar.
E aí está o desconforto.
Porque nem toda coisa que funciona está bem. Nem toda casa acesa está segura. Nem toda pessoa que continua está inteira. O mundo adora confundir funcionamento com saúde. Se a lâmpada acende, se a cadeira segura, se o trabalhador comparece, se a família dá conta, se o sistema ainda entrega alguma coisa, parece que o problema diminuiu. Às vezes diminuiu. Às vezes apenas aprendeu a se esconder melhor.
A gambiarra ensina essa ambiguidade com uma clareza brutal.
Ela mostra a beleza da invenção e o preço da falta. Mostra a graça do objeto convocado para ser outra coisa e a tristeza de uma vida obrigada a pedir demais aos objetos. Mostra o orgulho de quem resolve e o cansaço de quem sempre precisa resolver.
Jeitinho não é gambiarra
O título do livro junta duas palavras que vivem próximas, mas não são iguais.
O jeitinho mora nas relações. Está na conversa, no pedido, no favor, na porta lateral, no nome de alguém, na pequena dobra da regra. Ele pergunta: quem deixa passar?
A gambiarra mora na matéria. Está no fio, na cadeira, no cano, no portão, na extensão, no prego torto, na fita que tenta convencer o mundo físico a aguentar mais um pouco. Ela pergunta: o que ainda aguenta?
Um negocia com pessoas.
A outra negocia com objetos.
Os dois aparecem quando a forma disponível não basta. Quando a regra chega dura demais, quando o dinheiro chega curto demais, quando o tempo chega atrasado demais, quando a casa, o trabalho, a cidade ou a vida exigem uma solução antes da solução correta.
Por isso é fácil rir. E também é perigoso rir depressa.
A gambiarra fotografada raramente dá choque. A gambiarra usada, sim. Vista de longe, ela pode parecer apenas uma prova engraçada de engenho brasileiro. Vista de perto, talvez esteja protegendo uma criança, segurando um telhado, disfarçando um risco, adiando uma reforma, administrando uma falta que ninguém deveria ter romantizado.
O livro caminha nesse intervalo: entre admiração e desconfiança.
É preciso respeitar a mão que remenda. Mas não se deve absolver automaticamente o mundo que tornou aquele remendo necessário.
Uma coisa remendada até parecer destino
O subtítulo do livro — Uma coisa remendada até parecer destino — talvez diga quase tudo.
Porque o perigo maior da gambiarra não é a feiura. Feiura, muitas vezes, é apenas sinceridade material. O perigo é quando a coisa remendada começa a parecer natural. Quando ninguém mais vê a fita. Quando todos sabem o pequeno ritual necessário para fechar a porta. Quando o corpo desvia do fio sem pensar. Quando a criança aprende cedo demais onde não deve encostar. Quando a casa inteira se organiza ao redor do defeito.
O defeito, então, venceu de um modo discreto: tornou-se costume.
Há países, casas, empresas, famílias e corpos que funcionam assim. Não desabam. Não param. Não gritam. Apenas exigem atenção constante. Um ajuste aqui, uma paciência ali, um desvio, um favor, uma improvisação, uma renúncia pequena demais para virar escândalo e repetida demais para ser inocente.
A gambiarra é material. Mas também é linguagem.
Dizemos “não está bonito, mas funciona” com uma sinceridade quase adulta. Há momentos em que isso é suficiente. Há momentos em que beleza seria luxo. A panela precisa ter cabo. O portão precisa fechar. O ventilador precisa girar. A vida precisa atravessar a noite.
Mas a frase tem um fundo escuro.
Primeiro aceitamos que não esteja bonito. Depois aceitamos que não esteja seguro. Depois aceitamos que não esteja justo. Depois aceitamos que não esteja digno. E, quando percebemos, o verbo funcionar já está absolvendo coisas demais.
Ler o Brasil pelo remendo
O Jeitinho da Gambiarra é o segundo livro da série COISAS DO BRASIL, uma tentativa de olhar para objetos, palavras, gestos e expressões brasileiras até que eles revelem mais do que pareciam carregar.
No primeiro olhar, a gambiarra é um fio.
No segundo, é uma solução.
No terceiro, é um sintoma.
No quarto, talvez seja um país inteiro tentando continuar por onde não cabia.
Não se trata de transformar tudo em tragédia. Há humor. Há afeto. Há invenção. Há aquela inteligência doméstica que pergunta a cada objeto: o que mais você pode ser agora?
Mas também há uma pergunta que insiste:
Quantas vezes uma sociedade pode elogiar a criatividade de quem foi obrigado a improvisar?
Talvez este seja o ponto. A gambiarra é bela quando abre passagem. Torna-se triste quando substitui o cuidado. É esperta quando ganha tempo. Torna-se cruel quando ganha permanência. Salva o dia quando reconhece a urgência. Mas denuncia o país quando precisa salvar o mesmo dia todos os dias.
Por isso o fio da capa não é apenas um fio. É um pequeno retrato da nossa habilidade de continuar. Da nossa dificuldade de parar para consertar. Da nossa tendência a chamar de charme aquilo que talvez tenha nascido de cansaço.
O fio não devia funcionar.
Funciona.
E agora já não é possível fingir que isso diz pouco.
Nota final
O Jeitinho da Gambiarra, de Tilo Plöger, já está disponível na Amazon Brasil.
Para quem quiser entrar mais fundo nessa coisa remendada até parecer destino, procure pelo título na Amazon ou acesse aqui.


